segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Oco

Tem um oco. E parece que a única coisa que protege ele do resto é uma casca, fina como uma casca de ovo. Dentro dele cabem todos. Dentro dele cabe tudo. Ele é suspenso e paralisante, e me deixa flutuar entre as coisas e observá-las.

Ele me deixa flutuar entre todas as pessoas e entre todas as coisas como se a vida fosse um videogame e eu tivesse entrado em uma sala de save, onde nenhum monstro ou inimigo consegue entrar. O oco é uma pausa na vida. O oco é um descanso da existência. O oco está em mim, como uma brecha na rocha dura da montanha. Eu boio pelo oco num sonho desbotado e brilhante de cloro nos olhos. Eu passeio pelo oco numa meditação bamba e cansada de poeira e calor.

Eu olho para o oco com espanto e admiração. Eu olho para oco como quem olha para um vidro cheio de formol onde jaz conservado um animal inteiro. Mas minha admiração não está no animal, está no formol; e meu espanto não está no ato mórbido e impossível de conservar a vida em morte, está em como essa morte que quer ser vida um dia foi uma vida morta.

Achei que o oco me protegia de todos e de tudo. Dessa ânsia que vejo nos olhares vazios. Desse vazio que vejo na ansiedade dos olhares. Dessa prisão que sinto perseguir cada ser livre. Dos monstros e inimigos. Do cheiro do formol. Do cloro nos olhos.

Talvez, na verdade, eu é que esteja no oco, me protegendo de mim mesmo, e não o oco que esteja dentro de mim, me protegendo de todo o resto.

Talvez eu só tenha que fazer uma omelete.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

estações do tornar-se

O cinema brasileiro é bem político, né. A gente aprende na faculdade muito dessa tradição de usar a arte pra causar impacto social de forma política, e essa foi uma coisa que me causou um bocado de dor de cabeça enquanto eu ainda estudava, porque dificilmente eu pensava em algo político pra escrever ou filmar.

Nada do que eu crio é muito ligado a isso, e minhas referências são as mais básicas possíveis. Eu fui criada na base do cinema final-feliz estadunidense, como a maior parte das pessoas que eu conhecia, e o pouco que eu vi de filme brasileiro no cinema era muito mais estúdios Globo do que era Glauber Rocha. Então foi uma exploração incrível ao mesmo tempo que assustadora descobrir tudo além do que eu sabia.

Eu não vou dizer que eu entendi de cara, muito pelo contrário. Foi um certo processo até eu me tocar porque que tudo aquilo era bom, porque que falar de política era importante, e durante essa caminhada eu me sentia mais e mais envergonhada de não ter conhecido antes. Maior ainda era a vergonha de não conseguir desenvolver algo que tivesse a mesma vibe. Eu sou o que meus amigos chamam de "Brasil com Z": uma brasileira de nascença, mas não tanto de cultura. Apesar de amar o que a gente faz, é um gosto adquirido, quase que de turista. As pessoas que eu conheço tem um conhecimento enorme de tudo que é brasilidade e eu tô aqui descobrindo que eu gosto de umas músicas do Tim Maia agora.

Tudo que eu pensava era caro demais pra ser feito de verdade, e não era algo que nem fazia sentido pra uma audiência brasileira. Até gosto de dirigir, mas viver de edital não é um negócio que me apetece nem um pouco e além disso eu sou roteirista, escritora. Vender um roteiro e eles que lutem é meu sonho de princesa, mas não é comum pra nossa forma de produzir. Sou branquela de tempo frio, que sempre quis ver Natal com neve e que não pode sair no sol se não desmaia. E tudo era político. Tudo, tudo, tudo.

Como é que eu ia falar de política de um país que eu aparentemente nem entendia? Eu, com meu RG que as vezes parecia falso de tão deslocada que eu me sentia.

Eu desencanei dessa nóia desde então. Foi difícil admitir que eu não fazia o que as pessoas achavam importante fazer — a sensação não era só a de ser irrelevante, eu me sentia como se eu fosse parte do problema. Mas trinta segundos depois eu me toquei que se eu não era relevante, eu tava livre. Eu não precisava estar presa ao que as pessoas queriam, ou o que elas diziam que precisavam, ou à uma tradição do que sempre tinha sido. Eu podia fazer o que eu queria. Eu podia ser relevante pra mim. O que eu aprendi na faculdade me rendeu mais referências, abriu minha cabeça, me fez respeitar mais as pessoas que sabem coisas que eu nunca vou saber, e expandiu meu conhecimento, meu universo, minhas relações de afeto. Com o efeito curioso de que essa relação de afeto agora incluía eu mesma.

Hoje eu abri um arquivo que eu comecei naquela época, que eu não fazia ideia de como continuar. É uma história que naquele ano eu relutei tanto em levar pro lado que ela estava indo que eu parei de escrever completamente. Eu não sabia o que fazer, porque eu estava procurando uma saída baseada no que as pessoas diziam que era importante, e não no que eu achava importante. Eu queria um roteiro que fosse o que eu aprendi de fora: o que tinham feito, o que me diziam que eu tinha que fazer também pra que fosse válido.

Mas não é assim que eu faço. Não é assim que é meu jeito de fazer as coisas. E o que eu faço é válido pra mim, e isso é mais do que o suficiente, mesmo que ninguém mais goste.

Eu escrevo o que me faz feliz. Eu escrevo sobre ser feliz. Sobre dar um jeito de ser feliz e de apreciar sua vida mesmo quando todo mundo diz que o jeito que você vive tá errado. Talvez porque foi isso que eu tive que aprender a fazer na raça.

É fácil saber pra onde aquele filme vai, hoje em dia. Fácil fazer ele ir, porque na verdade eu tô só parando de impedir que ele vá. Ele é uma carta de amor ao meu tempo na faculdade. Ao aprender, ao estar desconfortável, ao não saber pra onde ir. A um expandir de mim que foi tão importante, e que eu lembro com um carinho tão grande até hoje, e que me dói que já tenha passado. Foi tão difícil não saber, foi tão difícil bater cabeça com tudo ao meu redor. E foi tão, tão, bom. 

As melhores partes da minha vida foram desconfortáveis. E eu escrevo sobre a alegria do descobrir. Do errar. Do não saber. Do tentar. Eu aprendi muito com o cinema político brasileiro, com as chanchadas dos anos 40, com a Hollywood americana, com a nouvelle vague francesa.

Mas meu cinema é meu. Meu cinema não é político, porque meu cinema não é para os outros outros. Meu cinema é pra mim. E se só eu gostar, tá tudo bem. Minha única pretensão é aprender mais. Ser mais desconfortável, pra que eu possa ser mais feliz.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

O dia em que conversei com Jack Kerouac

Depois de caminhar numa estranha estrada, rente a trilhos de trem e entre vagões apinhados de latas, chego em casa. Não é mais o clima quente e seco de quando eu caminhava no entressonho, agora está nublado e um pouco frio; uma luz azulada vem da janela chuvosa – acho que é de manhã bem cedo.


Olhando pra fora está meu agora amigo, Jack. Ele fala sobre algumas coisas e se dirige à pia da cozinha. A princípio ele parece meio grosso, mas é só seu jeito direto e desinibido de falar. Me aproximo e a ficha finalmente cai: digo a ele “olha cara, desculpa, normalmente eu não faço isso, mas não é todo fã que tem a chance de se tornar amigo do seu maior ídolo, então quero fazer uma perguntas”.

“Faça, ora”.

“Você realmente escreveu o Road em três semanas? Quer dizer, são sete anos né? Quanto tempo levou pra escrever? Que tamanho tinha o original?”.

“Essas perguntas... Escrever nada tem a ver com tempo. Ninguém entende... Foram três meses, amigo. 85 mil palavras perfeitas, estragadas por um milhão de vírgulas de um editor. Elas estavam lá, todas elas, em quatro grandes folhas.”

“As folhas de papel-manteiga?, os rolos?”

“Sim, os rolos de papel-manteiga. Quatro deles, contando minha história. Então depenaram tudo. Ainda bem que eu soube que vão publicar a obra original.”

Mais do que depressa, eu lembro da minha pequena biblioteca beat, empoleirada em algum canto. “Já publicaram! Eu tenho! Vou te mostrar!” grito, e corro para uma porta que dá num pequeno corredor. No final do corredor há uma pequena peça com gavetas e prateleiras. Jack fala algo que eu não entendo. Travo uma batalha contra a peça atrás da minha edição de bolso do Manuscrito Original de On The Road. Quando o encontro nem chego a toca-lo, entristeço ao perceber o que acontece:

O sonho anterior ao do corredor já se dissipa no ar, e Jack Kerouac foi embora. Tudo o que eu tenho agora são alguns livros que não estão lá e a atmosfera onírica – tão frágil agora que sei dela quanto o sono de um bebê recém-adormecido. Resta agora acordar o mais depressa possível e seguir os passos do meu novo amigo: pegar o caderninho na minha cabeceira e anotar rapidamente, ainda no escuro, antes que o sonho se dissolva docemente no ar, num lento fade out – como os últimos quadros de um filme tão envolvente quanto seu livro favorito; mas que, assim com o livro, irremediavelmente, terá que terminar.

Terça-feira, 29 de março de 2016

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

não vale a pena viver como um adulto

Hoje eu passei na praia. Andei a distância do apartamento do meu pai, onde eu estou hospedada agora pro final do ano, até o primeiro pedaço de água que eu encontrei onde eu podia me enfiar sem me cortar demais nas pedras.

Há não muito tempo atrás eu teria me enfiado pelas pedras mesmo. Indo com calma, mas animada, por cima das pontas, e provavelmente perdido um tampo do dedo ou qualquer coisa, mas nem notado porque a felicidade de estar fazendo algo meio perigoso era maior.

Semanas atrás eu tive um dia ruim e fui andar de patins, sozinha mesmo. Enfiei o joelho no chão tão feio que ficou uma rodela roxa por semanas. Eu ri. Doeu na hora mas tá tudo bem. Meu dia ficou melhor depois do tombo. Eu tenho idade pra cair, ralar, me estropiar. Depois dos 25 é só ladeira abaixo, hahaha — enfia essa merda no teu cu.

Eu devia ter ido pelas pedras. Mas eu tava com o celular.

No fone de ouvido eu ouvia uma playlist que eu tinha feito em 2021. Nessa época eu fazia esse mesmo caminho todo dia, e olhava o pessoal se divertindo na praia.

Umas das melhores memórias da minha vida é dessa época. Um grupo de garotos de uns 12 à 15 anos, pulando de um dos decks de saída dos barcos no mar, daí subindo a escada, e pulando de novo de tudo que é jeito. Uns tentavam dar mortal. Enfiavam a cara na água. Todo mundo ria. Era começo de tarde, e tava sol, mas não muito quente. A água brilhava. Eu filmei um segundinho deles brincando, eles viram e deram tchau.

Hoje eu cheguei na praia já era de noite, mas anda quente que nem o nono círculo do inferno, então tinha gente na praia ainda. Eu tirei os chinelinhos e fiquei andando pra lá e pra cá, chutando a água o mais alto que eu podia, no raso. Um grupo de crianças de uns 10 anos brincava um pouco mais pro fundo.

Daqui a pouco chega a mãe, com uma garrafa de cerveja na mão, berrando:

—Davi, sai daí agora! Não, Não, agora, não quero choro nem vela.

Daví abriu os braços, como quem perguntava, porra, sério memo?

Eu pensei, porra, dona, larga a breja, vai brincar com o Daví. A senhora tá precisando.

Mas eu tenho amor aos dentes. Não falei nada. A mãe não queria nem saber, de qualquer jeito. Voltou Daví, voltou todo mundo. Mas, mas sem drama, eles não perderam tempo algum. Voltaram pela areia correndo, já no meio do pega-pega.

Eu olhei pro oceano atlântico. O oceano atlântico. Ali na minha frente.

O celular no meu bolso, o casaco amarrado na cintura pra ser mais difícil pro ladrão só passar a mão.

Não quis nem saber. Me enfiei até onde dava, chutando a água pra cima. Teria entrado até o pescoço se eu fosse criança, ainda. Foda-se o iPhone. Porque uma criança de 10 anos tem iPhone, cacete? Ah calma. Eu tenho 28.

Porque uma criança de 28 tem um iPhone, cacete?

Voltando pra casa vi uma menina que não devia ter mais que a minha idade fumando na frente da farmácia do outro lado da rua. Enquanto eu esperava na faixa de pedestre ela deu um último trago no cigarro, passou a mão no rosto meio desolada, e entrou pela porta pra ir até o fundo, onde a gente pede remédio com receita. Na minha cabeça ela foi pedir remédios de enfisema pulmonar, mas é provavelmente porque recentemente uma das irmãs foi diagnosticada com isso aí. Igual minha avó, que morreu disso, inclusive. O médico disse pra ela "ou larga o cigarro ou morre em seis meses". Disseram exatamente a mesma coisa pra minha avó quando eu tinha uns três, quatro, anos. Na minha cabeça foi o mesmo médico. Tanto ela quanto minha avó pararam de fumar no dia seguinte. Minha avó viveu mais quinze anos. Brincava comigo no chão da sala, com brinquedos que eu guardava das vezes que eu ia no McDonald's, quando eu era bem criança. A gente gostava de ver fotos, também, e imaginar o que as pessoas tinham. Me ensinou umas brincadeiras antigas, quando eu era mais velha. Me ensinou o cordel do Pavão Misterioso. Ria de todas as minhas piadas.

Já perto de casa, vi um mercadinho, e ponderando se eu passava e comprava alguma coisa pra comer, um amigo meu mandou uma mensagem no celular pouco depois disso.

Rola colar no discord pra gente mandar aquele minecraft, bicho?

Okay. Pra isso que serve o celular.

 Tem macarrão em casa. E hoje eu descobri umas prioridade.

Claro, mano. Tava na praia, deixa só eu chegar em casa e tomar um banho que eu tô salgada kkkk

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

A caixa de gordura

Uma caixa de gordura é um tanque de concreto ou uma peça pré-fabricada em plástico onde a água da pia da cozinha é despejada antes de ser descartada na rede de esgoto. Dentro da caixa de gordura há uma determinada quantidade de água acumulada propositalmente.

Há alguns anos eu me mudei para o meu antigo apartamento, numa cidade a mais de 1.000 quilômetros de casa — bem longe, bem escondida. Antes de me mudar peguei o laudo da vistoria e vasculhei cada canto do apartamento para não ter nenhuma surpresa quando fosse entregá-lo à imobiliária.

Por serem mais leves do que a água as partículas de óleo e gordura que são despejadas na caixa de gordura junto com a água da pia da cozinha ficam boiando na superfície. Apenas a água "limpa" passa por um tubo na parte de baixo da caixa, evitando que a gordura provoque o entupimento da rede de esgoto.

Não houve um buraco de prego, uma janela, uma lâmpada, um espelho elétrico sequer que eu não tivesse conferido e batido com o laudo da vistoria antes de me mudar para o meu antigo apartamento. Qualquer coisa que eu tivesse que consertar ou trocar ao sair seria algo que eu mesmo tivesse quebrado ou gasto.

A gordura que se acumula na caixa de gordura forma placas sobre a superfície da água acumulada dentro da caixa de gordura. Não existe uma "rede de captação de gordura", a gordura não evapora e não dilui na água, ela fica boiando na superfície da caixa de gordura até ser limpa.

Quando eu estava me preparando para devolver meu antigo apartamento e voltar pra casa, peguei o laudo da vistoria e conferi tudo: todas as paredes, janelas, lâmpadas e espelhos elétricos estavam em ordem. Então, alguém me perguntou "você conferiu a caixa de gordura?".

Os dejetos e a gordura da água da louça lavada na pia depositadas na caixa de gordura ficam boiando na água acumulada e formam placas de gordura. Essa oleosidade vai ficando impregnada nas paredes da caixa de gordura e formando camadas de crostas que parecem um musgo oleoso e mal cheiroso.

Eu não sabia o que era uma caixa de gordura, então perguntei "o que é uma caixa de gordura?" e a pessoa me respondeu que era aquele ralo que ficava na área de serviço, na frente do tanque. Ela disse que pra conferir se a caixa de gordura estava limpa era só tirar o ralo. E eu perguntei "como assim, limpa?".

Em geral as caixas de gordura de casas e apartamentos modernos são de PVC e contam com um cesto para filtragem dos sólidos. Para limpá-las basta tirar a tampa da caixa de gordura, puxar o cesto e despejar seu conteúdo num saco de lixo comum. Depois é só reencaixar o cesto e tampar a caixa de gordura.

Não havia mais nenhum móvel no meu antigo apartamento, eu já tinha vendido todos. Dentro dele só havia uma manta dobrada, um travesseiro, uma bolsa cheia de roupas e eu. Abri o porta-malas onde todas as minhas coisas esperavam a viagem de volta, peguei uma chave de fenda, enfiei numa fenda da tampa e abri a caixa de gordura.

Em geral as caixas de gordura de casas e apartamentos modernos contam com um cesto para a filtragem dos sólidos. Basta tirar a tampa, puxar o cesto e despejar o conteúdo num saco de lixo comum. Mas a caixa de gordura do meu antigo apartamento ficava em um apartamento de um prédio antigo.

***

Às vezes o tempo em que vivi no meu antigo apartamento parece ter sido um sonho distante. Até eu me lembrar da caixa de gordura. Ela é muito real pra ter sido sonhada.

Embora não tenha sido uma experiência agradável, eu não me importei de ter que limpar a caixa de gordura do meu antigo apartamento. O ano que passei fora foi tão estranho que às vezes essa é a única lembrança que parece fazer algum sentido.

Às vezes eu acho até que a missão da minha vida, a prova que eu tinha que cumprir ao descer neste mundo, era limpar essa caixa de gordura, mesmo sem saber se fui eu quem a sujei tanto. Mas pra isso eu tinha que viver alguns meses num lugar a mais de 1.000 quilômetros de casa.

É como dizem: o maior tesouro do herói não é o elixir, é a jornada.

***

Eu acho que antes de mudar todo mundo deveria limpar sua caixa de gordura, mesmo sem ser culpado de ela estar suja. Mas pra isso a gente tem que encontrar a caixa.

E às vezes ela está num lugar distante.

Bem longe, bem escondida.

segunda-feira, 15 de maio de 2023

alguns fragmentos

i.
Há muitos anos atrás eu lembro de fazer uma lista de coisas que fazia eu me sentir eu — e de um jeito bem profundo de eu, não só um "ah, eu gosto disso aqui". Tinha desde coisas muito bestas, tipo prender cabelo com um lápis, e ouvir jazz, até coisas maiores, que eu sei que estavam lá, mas não lembro quais eram. 

ii.
Ontem foi dia das mães, e eu vim pra baixada santista pra ver ela e o resto da família. Sempre tive uma relação de amor e ódio com a cidade em que eu nasci e cresci — pela maior parte da vida, já que eu nem sempre morei aqui —, e essa sensação as vezes é a mesma que eu tenho a respeito de coisas que eu nunca tive. E essa é também a mesma sensação de várias das coisas que tão nessa lista. Uma lista que tem o cheiro da maresia, que por muito tempo me fez até mal. Luzes de Natal daquelas que são lâmpada mesmo, coloridas. Neve. Duas coisas presentes em alguns dos momentos mais difíceis que eu já passei. Ambas na lista.

Assisti Seinfeld com a minha mãe. Rimos de verdade até das piadas meio sem graça.

iii.
Ouço o podcast da Julia Louis-Dreyfus, e esses dias finalmente ouvi o episódio em que a convidada é a Fran Lebowitz. Uma figura, e ajuda que tudo que eu ouvi desse podcast até agora me toca de uma forma que eu não sei explicar direito. Perguntas e respostas honestas — erros cometidos, arrependimentos. Sua memória favorita.

Julia abre o episódio falando da infância em Nova York, de comprar um brinquedo em uma loja que não existe mais. Da neve. Da cidade ao seu redor. Ela fala de ter mudado de lá muito, muito cedo, e se emociona falando sobre voltar.

iv.
Tenho um desses guias de viagem que é da série Para Leigos, sobre Nova York. Eu lembro do dia que eu comprei. Ganhei, na verdade.

Estávamos em São Paulo, eu, meus pais, uns amigos da família. Um deles me disse um dia que sempre quis visitar Nova York. Eu não lembro de saber muito sobre a cidade até aquele momento. Eu devia ter uns 12 anos, nem tinha muito como.

Alguma coisa clicou na minha cabeça, e eu fui atrás da sessão de livros de viagem. Se mal me lembro quando passamos no caixa eu pedi pro meu pai levar um livro; eu lembro bem dele dizer:

— Porque que você quer um livro sobre Nova York? Tá pensando em ir pra lá?

Eu dei de ombros. Não sabia responder, mas eu não queria ir embora sem o livro.

v.
Dei embora a maioria dos meus livros, quando mudei de vez da casa dos meus pais. 

Ainda tenho o Nova York Para Leigos. Acho que a maioria dos lugares que tão escritos lá nem existem mais.

vi.
To escrevendo esse texto sentada na sala de espera da minha psiquiatra. Não conhecia ela até recentemente, não pessoalmente. Só pela tela do Google Meet, ou das calls do WhatsApp. Vim de Uber, sem me importar com o trânsito na Av. Ana Costa. Quatro da tarde, nem era tão horário de pico assim.

Minha psiquiatra tem um jeito que me lembra uma personagem da Ilana Kaplan, uma psicóloga. Minha vida as vezes parece ficção mesmo. Quando acabar aqui eu vou pra casa do meu pai andando. São 40min de caminhada, mas eu vou pela praia, sem correria. Tomo um caldo de cana no caminho.

Eu fazia isso nos meus piores dias, em 2021. Terapia toda semana, e voltar andando pra casa dessa mesma rua. Tomar um caldo de cana. Eu queria sumir, naquela época. A caminhada e o caldo de cana estão na lista.

vii.
Nova York está na lista.

Não fui lá ainda. Mas tá lá.

domingo, 25 de dezembro de 2022

eu e meu antigo problema com cadernos

Eu tinha um problema com cadernos: tinha muitos.

Havia uma parte do meu guarda-roupa separada só pra guardar meus cadernos. Eu costumava usar um caderno para tratar de cada assunto: tinha o caderno dos rabiscos, o dos poemas, o das anotações; cadernos só pra escrever histórias, contos, ideias para filmes; cadernos para escrever os roteiros dos filmes que saiam do caderno das ideias. E tinha os cadernos de anotações: um pra anotações gerais, um para anotar sonhos e um caderno só pra passar as anotações a limpo.

Costumo andar sempre com um caderninho no bolso e anotar coisas que acho dignas de nota. Para não esquecer das coisas que anoto nos caderninhos comecei a passar o conteúdo deles a limpo num dos cadernos que guardava em meu guarda-roupa. Mas eu não os jogava fora. Então eu também tinha uma caixa cheia de caderninhos.

Eu e meu antigo problema com cadernos.

Acho que o maior problema era pensar que um dia eles poderiam ser a solução.

Em um dia ensolarado de verão eu resolvi o problema: peguei minhas caixas de cadernos, arranquei as folhas uma a uma e queimei tudo. Todos aqueles sentimentos reprimidos, todas aquelas interpretações antigas de mundo, todas aquelas ideias que apodreceram antes de madurar, a fumaça subia e transmutava tudo numa espécie de ritual de purificação.

Tudo, menos algumas coisas que eu fiz questão de anotar num caderno novo antes de queimar os antigos. Agora tenho só um caderno onde guardo tudo que acho digno de nota: sonhos, fotos, notícias, coisas intrigantes, diálogos marcantes, coisas diferentes, anotações de direção, relatórios de filmagem, ideias que jamais serão filmadas...

Eu ia queimá-lo também, mas vai que um dia ele seja a solução.