quinta-feira, 21 de novembro de 2024

estações do tornar-se

O cinema brasileiro é bem político, né. A gente aprende na faculdade muito dessa tradição de usar a arte pra causar impacto social de forma política, e essa foi uma coisa que me causou um bocado de dor de cabeça enquanto eu ainda estudava, porque dificilmente eu pensava em algo político pra escrever ou filmar.

Nada do que eu crio é muito ligado a isso, e minhas referências são as mais básicas possíveis. Eu fui criada na base do cinema final-feliz estadunidense, como a maior parte das pessoas que eu conhecia, e o pouco que eu vi de filme brasileiro no cinema era muito mais estúdios Globo do que era Glauber Rocha. Então foi uma exploração incrível ao mesmo tempo que assustadora descobrir tudo além do que eu sabia.

Eu não vou dizer que eu entendi de cara, muito pelo contrário. Foi um certo processo até eu me tocar porque que tudo aquilo era bom, porque que falar de política era importante, e durante essa caminhada eu me sentia mais e mais envergonhada de não ter conhecido antes. Maior ainda era a vergonha de não conseguir desenvolver algo que tivesse a mesma vibe. Eu sou o que meus amigos chamam de "Brasil com Z": uma brasileira de nascença, mas não tanto de cultura. Apesar de amar o que a gente faz, é um gosto adquirido, quase que de turista. As pessoas que eu conheço tem um conhecimento enorme de tudo que é brasilidade e eu tô aqui descobrindo que eu gosto de umas músicas do Tim Maia agora.

Tudo que eu pensava era caro demais pra ser feito de verdade, e não era algo que nem fazia sentido pra uma audiência brasileira. Até gosto de dirigir, mas viver de edital não é um negócio que me apetece nem um pouco e além disso eu sou roteirista, escritora. Vender um roteiro e eles que lutem é meu sonho de princesa, mas não é comum pra nossa forma de produzir. Sou branquela de tempo frio, que sempre quis ver Natal com neve e que não pode sair no sol se não desmaia. E tudo era político. Tudo, tudo, tudo.

Como é que eu ia falar de política de um país que eu aparentemente nem entendia? Eu, com meu RG que as vezes parecia falso de tão deslocada que eu me sentia.

Eu desencanei dessa nóia desde então. Foi difícil admitir que eu não fazia o que as pessoas achavam importante fazer — a sensação não era só a de ser irrelevante, eu me sentia como se eu fosse parte do problema. Mas trinta segundos depois eu me toquei que se eu não era relevante, eu tava livre. Eu não precisava estar presa ao que as pessoas queriam, ou o que elas diziam que precisavam, ou à uma tradição do que sempre tinha sido. Eu podia fazer o que eu queria. Eu podia ser relevante pra mim. O que eu aprendi na faculdade me rendeu mais referências, abriu minha cabeça, me fez respeitar mais as pessoas que sabem coisas que eu nunca vou saber, e expandiu meu conhecimento, meu universo, minhas relações de afeto. Com o efeito curioso de que essa relação de afeto agora incluía eu mesma.

Hoje eu abri um arquivo que eu comecei naquela época, que eu não fazia ideia de como continuar. É uma história que naquele ano eu relutei tanto em levar pro lado que ela estava indo que eu parei de escrever completamente. Eu não sabia o que fazer, porque eu estava procurando uma saída baseada no que as pessoas diziam que era importante, e não no que eu achava importante. Eu queria um roteiro que fosse o que eu aprendi de fora: o que tinham feito, o que me diziam que eu tinha que fazer também pra que fosse válido.

Mas não é assim que eu faço. Não é assim que é meu jeito de fazer as coisas. E o que eu faço é válido pra mim, e isso é mais do que o suficiente, mesmo que ninguém mais goste.

Eu escrevo o que me faz feliz. Eu escrevo sobre ser feliz. Sobre dar um jeito de ser feliz e de apreciar sua vida mesmo quando todo mundo diz que o jeito que você vive tá errado. Talvez porque foi isso que eu tive que aprender a fazer na raça.

É fácil saber pra onde aquele filme vai, hoje em dia. Fácil fazer ele ir, porque na verdade eu tô só parando de impedir que ele vá. Ele é uma carta de amor ao meu tempo na faculdade. Ao aprender, ao estar desconfortável, ao não saber pra onde ir. A um expandir de mim que foi tão importante, e que eu lembro com um carinho tão grande até hoje, e que me dói que já tenha passado. Foi tão difícil não saber, foi tão difícil bater cabeça com tudo ao meu redor. E foi tão, tão, bom. 

As melhores partes da minha vida foram desconfortáveis. E eu escrevo sobre a alegria do descobrir. Do errar. Do não saber. Do tentar. Eu aprendi muito com o cinema político brasileiro, com as chanchadas dos anos 40, com a Hollywood americana, com a nouvelle vague francesa.

Mas meu cinema é meu. Meu cinema não é político, porque meu cinema não é para os outros outros. Meu cinema é pra mim. E se só eu gostar, tá tudo bem. Minha única pretensão é aprender mais. Ser mais desconfortável, pra que eu possa ser mais feliz.

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