Depois de caminhar numa estranha estrada, rente a trilhos de trem e entre vagões apinhados de latas, chego em casa. Não é mais o clima quente e seco de quando eu caminhava no entressonho, agora está nublado e um pouco frio; uma luz azulada vem da janela chuvosa – acho que é de manhã bem cedo.
Olhando pra fora está meu agora amigo, Jack. Ele fala sobre algumas coisas e se dirige à pia da cozinha. A princípio ele parece meio grosso, mas é só seu jeito direto e desinibido de falar. Me aproximo e a ficha finalmente cai: digo a ele “olha cara, desculpa, normalmente eu não faço isso, mas não é todo fã que tem a chance de se tornar amigo do seu maior ídolo, então quero fazer uma perguntas”.
“Faça, ora”.
“Você realmente escreveu o Road em três semanas? Quer dizer, são sete anos né? Quanto tempo levou pra escrever? Que tamanho tinha o original?”.
“Essas perguntas... Escrever nada tem a ver com tempo. Ninguém entende... Foram três meses, amigo. 85 mil palavras perfeitas, estragadas por um milhão de vírgulas de um editor. Elas estavam lá, todas elas, em quatro grandes folhas.”
“As folhas de papel-manteiga?, os rolos?”
“Sim, os rolos de papel-manteiga. Quatro deles, contando minha história. Então depenaram tudo. Ainda bem que eu soube que vão publicar a obra original.”
Mais do que depressa, eu lembro da minha pequena biblioteca beat, empoleirada em algum canto. “Já publicaram! Eu tenho! Vou te mostrar!” grito, e corro para uma porta que dá num pequeno corredor. No final do corredor há uma pequena peça com gavetas e prateleiras. Jack fala algo que eu não entendo. Travo uma batalha contra a peça atrás da minha edição de bolso do Manuscrito Original de On The Road. Quando o encontro nem chego a toca-lo, entristeço ao perceber o que acontece:
O sonho anterior ao do corredor já se dissipa no ar, e Jack Kerouac foi embora. Tudo o que eu tenho agora são alguns livros que não estão lá e a atmosfera onírica – tão frágil agora que sei dela quanto o sono de um bebê recém-adormecido. Resta agora acordar o mais depressa possível e seguir os passos do meu novo amigo: pegar o caderninho na minha cabeceira e anotar rapidamente, ainda no escuro, antes que o sonho se dissolva docemente no ar, num lento fade out – como os últimos quadros de um filme tão envolvente quanto seu livro favorito; mas que, assim com o livro, irremediavelmente, terá que terminar.
Terça-feira, 29 de março de 2016
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