segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Oco

Tem um oco. E parece que a única coisa que protege ele do resto é uma casca, fina como uma casca de ovo. Dentro dele cabem todos. Dentro dele cabe tudo. Ele é suspenso e paralisante, e me deixa flutuar entre as coisas e observá-las.

Ele me deixa flutuar entre todas as pessoas e entre todas as coisas como se a vida fosse um videogame e eu tivesse entrado em uma sala de save, onde nenhum monstro ou inimigo consegue entrar. O oco é uma pausa na vida. O oco é um descanso da existência. O oco está em mim, como uma brecha na rocha dura da montanha. Eu boio pelo oco num sonho desbotado e brilhante de cloro nos olhos. Eu passeio pelo oco numa meditação bamba e cansada de poeira e calor.

Eu olho para o oco com espanto e admiração. Eu olho para oco como quem olha para um vidro cheio de formol onde jaz conservado um animal inteiro. Mas minha admiração não está no animal, está no formol; e meu espanto não está no ato mórbido e impossível de conservar a vida em morte, está em como essa morte que quer ser vida um dia foi uma vida morta.

Achei que o oco me protegia de todos e de tudo. Dessa ânsia que vejo nos olhares vazios. Desse vazio que vejo na ansiedade dos olhares. Dessa prisão que sinto perseguir cada ser livre. Dos monstros e inimigos. Do cheiro do formol. Do cloro nos olhos.

Talvez, na verdade, eu é que esteja no oco, me protegendo de mim mesmo, e não o oco que esteja dentro de mim, me protegendo de todo o resto.

Talvez eu só tenha que fazer uma omelete.

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