Eu sempre fui muito consciente do tempo. Uma fascinação por relógios, por plots de viagem temporal, por física. Eu brincava de juntar pedaços de lixo em casa, fingindo que eles iam virar alguma coisa incrível, e olhava o relógio, feliz porque no meu aniversário eu podia ficar acordada depois do Jornal Nacional.
A gente tinha uma cópia de O Universo em Uma Casca de Noz quando eu era criança. Eu estudei aquele livro ao invés de fazer lição de casa durante a pré-adolescência. Sabia, por causa disso, que o tempo era uma quarta dimensão, e daí eu fui entender que não era possível visualizar dimensões acima da terceira, porque a gente está na terceira.
Eu sabia o tempo, mas eu não entendia ele. Sempre faltou alguma coisa.
O tempo ele mesmo, talvez. Eu tinha só 12 anos, a física moderna um pouco mais de só 100. Nós duas olhando por um buraco de fechadura — tentando espiar pela fresta na parte de baixo — estando por trás de uma enorme porta fechada.
Do outro lado, uma versão mais velha minha entende o tempo de outra forma. Menos com a cabeça, mais com o coração.
E de alguma forma, nós somos a mesma pessoa. Assim como eu sou a mesma Ariel que colocava bandejas de isopor na ponta de um cabo de vassoura, descobrindo uma maravilha da ciência, enquanto alguém furava a parede do quintal de casa. Eu estou lá.
Agora eu tenho 3 anos, e ouço meus pais brigarem enquanto eu viajo que não estou entendendo nada, e faço graça pra duas das irmãs da minha mãe que foram lá pra tentar apartar a discussão. Estou comendo um ovo, chupando a gema direto do prato. Ao mesmo tempo eu estou sentada em dois velórios: uma das tias do meu pai, que ajudou a criá-lo quando ele era pequeno. Lili, uma amiga da família, me faz companhia — ela puxa papo comigo sobre um anti-alérgico chamado Singulair. Meu pai não está lá. Eu sei que ele não vai chegar a tempo. Eu sei antes, e eu sei depois. Minha avó, a única pessoa da família com quem eu realmente me sentia próxima. É eu pai sentado do meu lado nesse espaço-tempo. Ele me diz que eu devia ir lá ver ela no caixão, que é importante. Eu não me importo. Mas anos depois ele não vai chegar pra ver a tia. Minha avó não é mais minha avó. Há bolinhas de algodão em suas narinas.
É natal e eu estou sentada num sofá bege, ouvindo Frank Sinatra. Na mesma casa, eu ocupo minha própria companhia, separada por mais de uma década. Estou sentada num sofá marrom, e ouço minha tia cantar enquanto monta um quebra-cabeça enorme. É natal, e minha avó morreu. É natal, e minha avó está ali do lado.
A missa do galo passa na televisão. É natal, e eu rezo um pai nosso com a minha avó. Olho pro meu avô sentado lá fora, fumando um cigarro. Em sua mão, a aliança. Aqui. Lá. Sempre. Algumas coisas só são.
Eu penso: é o fim de uma era. Alguma coisa acaba.
Meu avô morre por uma combinação da idade e da covid. Minha mãe sai de casa em meio a uma pandemia.
E eu penso: é o fim de uma era. Alguma coisa acaba.
Alguma coisa sempre acaba. Algumas coisas são só ecos.
O tempo passa, e é uma dádiva que tudo sempre mude. Não me lembro da dor de quebrar o braço. Eu não me lembro do medo paralisante de nenhum dos meus traumas. Eu sei deles, como eu sabia do tempo. Mas eu sinto o tempo, agora, e não sinto tanto medo.
Um dia eu vou mudar desse apartamento e não vou mais ver as luzes lá de fora distorcidas pelo vidro ondulado. Eu sinto esse fim vindo. É o final de uma era. E eu vou estar aqui, ainda. Sentada na cama, vendo elas passarem. Eu já sinto essa falta. Eu não sei o futuro, mas eu sinto ele. Ele é uma memória vaga. Um sonho caótico que te abala mesmo depois que você acorda, sem lembrar de nada.
O tempo serve, mas não existe, eu li uma vez, num livro quando eu era criança.
É natal, e minha avó morreu há talvez quinze dias, e meu primo me leva pra passear de moto. Estou na moto e meu primo veio me buscar da rodoviária, me levando pra casa dos meus pais — um lugar bonito, cheio de árvores, grama, cães, gatos e lagartos que tentam invadir a casa de vez em quando.
Eu mal vejo meus pais hoje em dia.
Daqui há dez anos, mais ou menos, eu vou me arrepender. Hoje, eu não sei fazer uma escolha diferente. Eu sei que eu devia, mas eu não sei como. É dois mil e alguma coisa. Eu finjo que não estou ouvindo eles brigarem. Finjo que não entendo o que está acontecendo.
Tudo acontece, eventualmente, uma conhecida me disse. Calma. Tudo acontece eventualmente.
Hoje, eu me perdoo por fazer o que dá. Por não saber fazer o que eu não sei. É o que eu faria, daqui a dez anos. Eu me perdoaria por, aos 27, não saber tomar uma decisão diferente.
Atrás da porta, olhando pela fechadura, eu tento ver alguma coisa lá dentro. Lá dentro, eu olho para trás e encontro meus próprios olhar curioso, vindo do buraquinho.
No velório, eu sei que vai dar tudo certo. No natal, eu sei que vai dar tudo certo. Hoje, eu sei que vai dar tudo certo. Por que tudo acontece, eventualmente.
O Jornal Nacional já acabou faz um tempo, nesse horário.
(Mas ainda dói. Ainda dói.)
Como, diabos, tu quer que eu escreva alguma coisa neste bendito blog depois de ler isso?!
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