Tem um canto na minha memória reservado para coisas que eu nunca vivi, lugares em que eu nunca estive e pessoas que jamais encontrei. É lá que eu guardo lembranças das coisas que nunca aconteceram comigo. É como um pequeno mapa do tempo onde está desenhado cada detalhe do meu próprio vazio.
A primeira lembrança da qual me recordo nunca ter vivido é uma noite fria. Um vento cortante sopra. Grandes morcegos se debatem no alto, atravessando a rua e fazendo sombra no brilho ferruginoso das luzes dos postes. Sinto nessa lembrança não vivida um gosto de prelúdio, embora ela ocorra numa noite-sem-tempo sem antes nem depois e não haja nada de especial nela, a não ser o fato de estar lá.
O primeiro lugar no qual me lembro nunca ter estado é uma ruela de paralelepípedos. Essa lembrança poderia ter acontecido em qualquer pequena cidade inexistente do interior brasileiro. Também é noite, uma noite quente, e não há pessoas na rua.
Caminho com meu pai até uma casa antiga de arquitetura colonial, que lembra uma casa antiga de fazenda. Não há quintal, a porta de entrada dá direto para a rua. Entramos. Meu pai me apresenta um amigo que é famoso na televisão, mas leva uma vida pacata em sua casa simples na ruela de paralelepípedos.
A primeira pessoa que me lembro jamais ter encontrado sou eu mesmo. Tenho então sete ou oito anos e estou sozinho em casa. Vou até a cozinha e topo comigo mesmo trinta anos mais velho. Me encaro em silêncio.
Meu pequeno mapa do tempo não faz sentido à luz da consciência, mas me ajuda a caminhar sem tropeçar na escuridão profunda da alma. E ele me ensinou que caso eu acabe tropeçando, a melhor maneira de não cair é continuar caminhando.
Nas minhas andanças lá e cá ao longo da vida acabei topando com a noite fria e com a ruela de paralelepípedos, apenas ainda não encontrei a mim mesmo.
Mas acho que isso, afinal, só vai acontecer quando eu parar de tentar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário