Sempre imaginei como seria viver na estrada. Enfiar uma mala no banco de trás do carro e sair por aí, sem destino certo. Igual a esses filmes que passam no Corujão, sabe? Igual aos textos do Sam Shepard. Acho que todo mundo imaginou isso ao menos uma vez na vida.
No início desse ano mudei de estado. Enfiei uma caixa com as minhas coisas no porta-malas do meu Corsa 2002 e dirigi 1348 quilômetros país adentro. Eu já tinha destino, então isso era pra ser só uma aventura. E foi horrível.
A estrada não é como nos filmes: não tem como você dar um "pause" pra ir no banheiro ou desligar a TV se a história estiver chata. Você tem que seguir, mesmo que às vezes tudo o que você queira seja a velha rotina que deixou pra trás.
Quase sete meses depois estou me preparando pra enfiar minha caixa no porta-malas e voltar. E se tem algo que essa aventura me mostrou é que o melhor que você pode fazer quando vai pegar a estrada é não esperar nada dela. E acredite: é muito difícil admitir isso sendo fã de Jack Kerouac.
Essa experiência está sendo importante pra mim e, embora talvez esse seja o único texto que eu vá conseguir extrair dela agora, sei que ela vai render muita coisa no futuro. Fazer filmes é noventa por cento viver e cinco por cento passar o que você viveu pra tela. Os outros cinco por cento é arrumar tempo e dinheiro pra fazer os filmes.
A verdade é que, apesar de caberem muitas vidas num único dia se você souber onde procurar, esse ano passou tão rápido quanto um carro na rodovia. Eu tenho certeza de que vou acordar na manhã de Natal e pensar que ainda é o Natal passado, que exagerei na bebida, que tudo isso não passou de um sonho. E, afinal das contas, não é isso que faz uma história ser boa?
Eu poderia ficar um tempão aqui escrevendo coisas que aconteceram nos últimos meses, mas o nome do texto é "crônicas de estrada" e eu não tenho nada de muito interessante sobre a estrada pra contar. Além do mais, tenho que resolver várias coisas antes de devolver o apartamento: pintura, reparos, vistoria...
Essa parte eles não mostram nos filmes. Não que ela não seja comum, mas eles cortam.
Eu sei disso. Eu faço filmes.
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