segunda-feira, 13 de julho de 2020

coisas que a água me ensinou

Dessa vez quem atrasou a brincadeira toda fui eu.

A gente perdeu um pouco o ritmo, por aqui. Ou talvez a gente tenha achado outros. Acho esse segundo mais provável.

Andei pensando bastante em ritmos, ultimamente, em como as coisas vão e vem, com certa periodicidade. Alguns ritmos são bem grandes, bem visíveis. A gente nasce e morre. A gente respira. A gente fala.

Me lembro de que quando eu era criança e ia na praia minha coisa favorita era ficar esperando as ondas virem. Eu ficava lá, parada por muito tempo num lugar só, prestando atenção em como acontecia: primeiro a água vinha de trás, com o recuo, fluindo como se tivesse voltando e retrocedendo. Daí parava só por um segundo e vinha toda de uma vez só, a onda quebrando quase que sempre em cima de mim. Era sempre gostoso, esse caos, e eu ria e pegava carona na onda (a gente chamava de jacaré) sempre que podia, mas as vezes era dose. Virava a gente de ponta cabeça e batia que nem máquina de lavar. Um susto bruto.

Mas meus momentos favoritos eram as marolas, as bem grandes e longas, que aconteciam mais no fundo. Apesar de quase ter me afogado uma porção de vezes eu raramente tinha medo de ir pro fundo por causa disso: eu aprendi a andar até quase não dar pé, a água passando do pescoço e batendo salgada na boca. E daí quando tinha onda eu via o oceano atlântico inteiro inflar e vir na minha direção e me elevar do chão, e ela uma delícia, sentir que tava suspensa. Naquele momento não tinha peso, e não tinha chão; só tinha eu, no ritmo do mar. E eu sentir tudo ir e vir, e mudar de ritmo de vez em quando, e eu sempre junto. Suspensa e parte do movimento. Quando a onda quebrava era atrás de mim. Eu nem sentia.

A vida anda bem esquisita ultimamente. A última vez que eu escrevi aqui eu não tinha a mínima ideia de que em tão pouco tempo o mundo ia ver um negócio tão bizarro, tão transformador. Mas também não posso dizer que eu tô surpresa. Eu sou nova demais pra ter visto tanto evento histórico, mas parece que eles tem acontecido com certa frequência. As coisas tem ganhado velocidade, e ao mesmo tempo ficado tão lentas. Retrocedendo um pouco, pra volta tudo pra cima da gente com tudo, toda vez.

Mas as ondas costumam quebrar bem perto da areia, e eu ando tentando descobrir como ir um pouco mais fundo, e arriscar o nariz debaixo d'água. Só pra tentar descobrir como é se sentir indo junto com esse movimento novo.

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