domingo, 25 de novembro de 2018

a solidão dos supermercados

Supermercados me deprimem.

Já na entrada, no caminho entre o portão e as portas, tem aquela zona de conflito entre motoristas e pedestres. Um território onde não se sabe muito bem a lei.

Passo pela porta de entrada e um jato de ar gelado parece arrancar a minha alma do corpo. Minha energia cai pela metade. Imediatamente me sinto estranho, mole, cansado, despido de qualquer proteção emocional.

Ziguezagueio entre as prateleiras num ambiente distópico, ultra-asséptico, com dezenas de pessoas organizando, etiquetando, empurrando carrinhos, chamando por senhas. Caminho por corredores intermináveis, a vida só é possível saindo deles, quilômetros adiante, onde donas bem vestidas, crianças sem educação e jovens sem senso de ridículo passam para lá e para cá.

Encontro o que quero, uma simples lata, garrafa ou pacote, e caminho para a fila do "caixa rápido".

Há quinze pessoas na fila do caixa rápido e as filas dos caixas "não rápidos" andam mais depressa que a fila onde estou.

Começo a olhar ao redor: intermináveis filas de latas e caixinhas, pacotes reluzentes à luz das lâmpadas fluorescentes, músicas escolhidas aleatoriamente entre avisos de promoções e descontos, pessoas, muitas pessoas, falando sobre a última rodada do campeonato, seus carros, o calor, o preço do caos, a demora na fila... Todos resolvendo os problemas do mundo. Só os problemas que os afetam e só com soluções que nada deles exigem.

Minha cabeça gira, gira, gira. Me sinto enjoado. Odeio pessoas, odeio essas pessoas, odeio seus assuntos. Quero ir embora, mas preciso levar embora meu pacote, minha garrafa ou minha lata. Eu vim até aqui só pra comprar isso.

Finalmente chega minha vez. Não tenho Clube Extra, não participo do Net Points, não quero CPF na nota. Não quero nada, só quero ir embora desse inferno! Finalmente pago e saio do supermercado, fecho os olhos e respiro fundo. Volto a mim.

Uma moto passa acelerando, rasgando tudo o que sobrou da minha sanidade. Todas as pessoas que melhoravam o mundo lá dentro se contradizem aqui fora. Há outra máscara além do ego e essa é a primeira que deve ser arrancada, mas ela é tão confortável.

Quer saber? Vocês todos se merecem.

A vida às vezes é sem sentido e você acha que a culpa é sua, mas não é: a culpa é dessas pessoas. A vida às vezes é triste e você acha que a culpa é sua, mas não é: a culpa é dos supermercados.

Supermercados me deprimem.

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