domingo, 23 de dezembro de 2018

pensar demais faz mal

Eu entro em pânico nas férias. Eu não fui feita pra estar de férias. Não que eu tenha sido feita pra estar doida com as responsabilidades da vida, também -- e olha que eu nem tenho tantas --, mas as férias me trazem o desespero especifico de não saber onde enfiar minhas mãos.

Durante as primeiras duas semanas eu fico que nem barata tonta pela casa; andando a esmo, falando sozinha, pulando de tarefa em tarefa sem conseguir terminar nada. Eventualmente eu acalmo, mas demora. É um processo.

Tudo que eu costumo fazer pra desacelerar depende muito de onde está minha cabeça: escrever, ver filme, ler livros. Raramente alguma coisa me ocupa de corpo inteiro, me dá algo que gaste um pouco da energia que tem correndo demais por mim. Mas esse ano um amigo finalmente me arranjou algo pra fazer que ocupasse meu corpo além da minha mente.

Ele viu meu gosto por mecânica e eletrônica, escondidos debaixo de camadas e camadas de artistísse, e me deu um kitzinho de chaves pra desmontar as coisas. Nele tem até umas torques bem miúdas-- e desde então eu botei coisas pra funcionar que estavam paradas há anos.

Abri câmeras, celulares e computadores, durante o semestre, e agora, no fim de ano, chegando na casa dos meus pais eu lembrei de algo um pouco mais analógico que estava parado há mais tempo ainda. Uma máquina de escrever que está na família desde que meu pai era adolescente. Quando a tia dele morreu eu convenci uma outra dia dele a me deixar ficar com a bichinha. Foi há uns quatro anos atrás, talvez cinco. Funcionava naquela época, e funciona agora, mas precisava de um trato.

Acalmei só de tirar o primeiro parafuso.

Me acostumei a criar durante minha vida até agora, mas existe uma satisfação especial em ver as coisas funcionando de novo. Algo que sempre esteve lá. Que só precisava de um pouco de atenção. Ver engrenagens movendo, ver o todo antes de se preocupar com as partes. Ver coisas que são reais, que estando lá, funcionam apesar de você, e vão continuar funcionando depois que você for embora.

Ter que estar no mundo real de vez em quando faz bem. Tem horas que só o que funciona é sentir um pouco da resistência dele contra as nossas mãos.

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