É uma espécie de truco com dados. Você coloca uns cinco deles em um copo, chacoalha, vira ele na mesa, e tenta convencer o próximo jogador de que tem uma combinação de dados lá dentro que é de maior ou igual valor dos que o da pessoa que veio antes de você. Meus pais jogavam isso com os amigos quando eu era criança, e eu lembro de observar hipnotizada a dinâmica da coisa. Impressionava pelo movimento; pelo som da resina plástica contra a madeira. Pelo aparente véu da sorte.
Me lembro de uma noite em que cerca de dez pessoas estavam todas sentadas em volta de uma mesa, com copos nas mãos. Todos meio alcoolizados, música tocando, a errática atenção de todos voltada para as mãos do meu pai, que cobriam a abertura que ele usava pra ver o que tinha tirado.
Meu pai tem esse jeito meio filha-da-mãe de sorrir; você não sabe exatamente o que tem ali por trás. Se ele tá mentindo, se tá falando a verdade, se tá só te zoando -- vai saber. Ele costuma ser bom nesses jogos porque joga com uma estratégia que consiste em sempre mudar de estratégia. Ou de não ter nenhuma.
O jogo chama Dudo porque em qualquer momento entre as declarações de cada jogador você pode duvidar dele. Duvidar do que ele diz sobre os dados que tem, de quantos deles estão errados ou qualquer outro detalhe da declaração que ele fez. É nesse momento do jogo que as apostam param e você revela o que tem. Se a pessoa que duvidou tiver com a razão, você paga a aposta.
Era difícil alguém chamar Dudo pro meu pai. As vezes ele chacoalhava o copo com os dados, batia o copo na mesa e, sem olhar, fazia uma declaração do que tinha lá dentro. E ninguém dizia nada. Porque tinha, contra todas as probabilidades, uma alta chance dele estar certo.
Minha altura nessa época era o suficiente pra que meu nariz ficasse colado na borda da mesa, e olhando desse ângulo, eu conseguia ver as mentiras, as verdades, e tudo que tinha no meio. Algumas rodadas a dentro e eu não duvidava mais das pessoas, eu duvidava dos dados.
Freud explica: talvez seja por isso que eu tenha começado uma pequena coleção de dados quando adolescente; uma que eu nunca levei pra frente, mas que ainda tem meu afeto. Possuo uns três ou quatro, até hoje. São bonitos, e balanceados à perfeição -- comprei numa loja de artigos para jogo profissional que tinha perto de casa nessa época.
Não lembro de ter rodado eles jamais na vida. Não lembro de jamais ter acreditado em sorte.
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