Eu ganhei meu primeiro patins de natal. Não lembro exatamente quando, mas eu devia ter uns oito anos, talvez. Era um negócio rosa esquisito da Barbie, que eu colocava por cima do sapato. Eu lembro muito bem da felicidade bem especifica de abrir o pacote e ver ele lá. Eu não estava esperando que o presente fosse exatamente aquilo, mas não tinha como eu ter ganhado algo melhor. Estávamos na casa de parentes, no Paraná, e eu não podia testar, mas eu aprendi a andar em cima daquelas rodinhas em uns dois dias, depois que chegamos em casa. Dentro do apartamento, mesmo. Enlouquecendo os vizinhos de baixo. Deixando a moça que cuidava de mim desesperada toda vez que eu caía.
No gelo, eu não sei. Eu já sabia ficar em pé em cima das lâminas, quando eu pisei pela primeira vez; talvez porque eu já soubesse com o outro patins, não sei. E seja lá quando foi que isso aconteceu, hoje em dia eu sinto falta de patinar no gelo, as vezes, de uma forma que chega a assustar, até. As vezes eu sonho que eu tô patinando no gelo, também. Num lago. Eu sempre acordo querendo ir dormir de novo, voltar pro sonho.
É uma dessas coisas que me atrai sem que eu entenda bem o porque, e esse próprio mistério é o suficiente pra me fazer ir atrás. Eu sou cheia delas, patinar no gelo é só uma delas. Lugares de que eu sinto falta. Coisas que eu vejo que me fazem querer chorar de tanta saudades. As vezes coisas e lugares que eu nunca nem tinha visto antes.
Minha mãe diria que é coisa de vidas passadas. Meu pai diria que no meu subconsciente eu associei algo legal da infância à patinar no gelo e a esse monte de outras coisas. Eu prefiro não saber muito sobre possíveis vidas passadas, muito menos sobre o meu inconsciente. Provavelmente eu só vi muito filme, na vida, mesmo.
Mas eu dou voltas bem desnecessárias na vida pra achar rinques de patinação em shopping no final de ano, mesmo assim, e quando eu piso no gelo, eu sinto uma mistura de estar muito feliz e bastante decepcionada, porque parece que falta alguma coisa. Falta alguma coisa importante, e meu corpo é mais desengonçado do que devia ser, eu escorrego mais do que parece que eu devia.
É que nem passar na frente de uma casa onde você morou há muitos anos e ver que ela tá só um pouquinho diferente. É estar, e ao mesmo tempo não estar, em casa.
Nessas horas eu lembro que se diz que "nosso lar não um lugar, mas são as pessoas", e é mais absurdo ainda.
Por que se é assim, de quem será que eu tenho sentido essa saudade toda, por todo esse tempo?
(E o que diacho essas pessoas tem a ver com patinação no gelo?)
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