Às vezes acho que tenho uma legião deles, pulsando como abelhas numa colmeia ou cupins num cupinzeiro. Às vezes acho que tenho meia dúzia e que eles ficam conversando e tomando vinho enquanto esperam a hora de aparecer. O fato é que eles estão lá.
De vez em quando eles acordam, dão uma olhadinha no tempo e voltam pra dentro. "Hoje não", eles dizem nesses dias, os dias em que a minha cabeça está nublada. Mas às vezes eles arregaçam as mangas, estendem suas asas, espreguiçando-se, saltam das suas janelas e tomam conta da situação. Nesses dias eu faço questão de exercitá-los, deixando que voem pra onde quiserem. Volta e meia um deles consegue sair, ganhando forma aqui fora. Quando isso acontece eu os coloco na Caixa de Pandora que mantenho no meu guarda-roupa.
O nome original deste texto era "exorcizando meus demônios".
Aí lembrei que a palavra demônio, como quase tudo, foi ressignificada em algum ponto da História. Antes da tradição judaico-cristã transformá-la no anjo caído que se rebelou contra Deus essa palavra referia-se a um Gênio que inspirava as pessoas, tanto para o "bem" quanto para o "mal".
Os antigos romanos acreditavam que todo homem tinha um Gênio e toda
mulher tinha uma Juno, como anjos da guarda que cuidavam dos vivos e não
deixavam que eles tomassem uma facada, caíssem num bueiro ou batessem o
dedinho na quina da estante.
O nome original deste texto era "exorcizando meus demônios".
Mas por que eu ia querer me livrar de algo que me inspira? Ou que me impede de bater o dedinho na quina da estante?
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