domingo, 30 de setembro de 2018

entre um crucifixo e o letreiro de hollywood

Eu morei em Santos por boa parte da vida, e acho que por mais que eu tenha mudado um bocado desde que sai de lá algumas coisas permanecem comigo. Os primeiros dias quentes da chegada da primavera ainda são bem distinguíveis; o cheiro da maresia ainda me faz bem. Faz anos, mas ainda está tudo lá, meio em luz, meio em sombra. Fragmentos da cidade, banhados em algo que não é nostalgia -- algo que não é tão amargo --, que as vezes encaixam na vida que eu levo agora. Eles são as pequenas coisas, as pequenas sensações. Me obrigam a aceitar que tem um pouco de romance na vida sim, se a gente prestar atenção.

Quando eu era criança o cinema mais próximo era o Cinemark do shopping Praiamar. Não era o único, e há quem diga que não o melhor, mas era o meu favorito. Eu gostava porque parecia antigo. Ficava no final da praça de alimentação, acho que ainda fica. Enfiado lá no fundo, a bilheteria comprida de vidro na frente, o cheiro de pipoca de cinema vinha de trás da cabine como uma promessa. Naquela época o papel de parede era aquele tecido estranho meio carpetado, de um vinho bem escuro, e a iluminação era mais baixa e mais amarela, aconchegante. Os ingressos não eram só uma fita de papel amarelo fino, eles tinham cara de ingresso mesmo, um formato menor, e na entrada das salas o atendente destacava metade e te dava a outra como souvenir. Eu me sentia em mil-novecentos-e-alguma-coisa.

Parecia um pouco misterioso, tudo aquilo, e estar ali tinha um que de perigoso, pra mim, de importante. Eu quase tinha medo de estar lá. Quando o filme ia começar e passavam os avisos de brigada de incêndio eu, que tinha aprendido o Pai Nosso com a minha vó em algum momento, dava de fazer uma reza rápida só pra garantir que nada ia pegar fogo. Não entrei numa igreja mais que meia dúzia de vezes na vida e missa devo ter visto umas duas, meio na marra. Mas no cinema, com a luz do projetor criando um rastro no ar quatro metros acima de mim, eu rezava.

Diferente do Cinemark, que se instalou nas minhas memórias pela convivência, pelas inúmeras vezes que eu andei pelos corredores correndo a mão pelas paredes carpetadas, pelos dias em que eu pagava um ingresso e via três filmes, o Cine Indáia se fez pra mim em uma única noite.

O saguão era enorme, alto. As portas de entrada eram todas de vidro, se estendendo por onde deviam ter paredes e dando ao lugar um certo ar de grandeza. A bomboniere era longuíssima, cheia de barras de chocolate. O cinema estava lotado, e enquanto eu ficava impressionada com tudo, me perguntando porque diabos eu nunca tinha entrado naquele lugar antes, a conversa dos adultos me dava respostas: era a última sessão do Cine Indáia.

O filme era Batman Begins, mas eu não lembrava de nada a respeito dele até assistir de novo anos depois. Eu estava exausta naquele dia, e minha mãe quase não me deixou ver o filme direito por medo de que eu não dormisse naquela noite. Estávamos sentados -- minha mãe, pai, eu, e alguns tios, tias e primos -- bem próximos da tela; o Christian Bale ficava enorme na minha frente. Em algum momento na metade de filme eu aliei o medo ao cansaço, me enrosquei no casaco do meu pai, fechei os olhos, e fiquei quietinha lá, tentando não não-assistir ao que se passava na tela. Eu vi Gotham, vi o Espantalho, vi o caos, mesmo assim. Mas por algum motivo os sons daquela noite pra mim se resumem ao barulho do projetor de 35mm que eu não tinha como ter escutado durante a projeção do filme em si. Talvez eu tenha escutado o som depois e associado àquela noite, talvez eu tenha ouvido naquele mesmo dia, antes ou depois do filme, mas na minha cabeça as imagens não eram acompanhadas de seus sons. E então eu não ouvia Gotham, não ouvia Espantalho, não ouvia caos. Eu ouvia o andar da película, vinte-e-quatro-quadros-por-segundo. Ouvia os últimos suspiros da máquina que transformava a história em som e fúria. Depois, andando pelos longos corredores da saída do prédio, com as pessoas comentando o quanto o lugar se parecia com o beco em que os pais de Bruce haviam morrido, eu finalmente entendia o que a palavra 'morte' significava.

Ano passado eu entrei na faculdade pra estudar cinema, e eu não lembrava de nada disso. Essas memórias não foram parte da escolha; a escolha veio de querer escrever, de querer testar os limites do que eu sabia. E testados os limites foram. Escrever foi se tornando negócio, burocracia. Filmes viraram análise, texto virou trabalho. O que é feito ou não é feito virou política. Tudo isso não só faz parte, como é necessário, também, de certa forma, mas informação importante se perde nos tramites da vida real. Algo sem nome fica pra trás. Algo não diluído, denso, que não é necessariamente feliz, mas que move, que faz criar.

Eu teria deixados minhas experiências quase religiosas com o cinema no passado não fosse o cinema da universidade. Na sala de projeção do teatro de lá temos um modesto home theater digital, utilizado em toda sua glória quase toda semana pelo projeto de extensão ligado ao curso. Mas do lado dele há um projetor de 35mm que não via filme há anos. Tenho um amigo que foi projecionista de cinema uma época, e que se ofereceu pra colocá-lo para funcionar uma vez. O projetor que ele usava era completamente diferente, e a película que tínhamos corria riscos de ser rasgada com qualquer erro, mas a professora responsável autorizou que tentássemos. Em uma tarde sem muita preparação colocamos meio quilômetro de filme numa bobina, passamos um trailer pelas engrenagens no projetor, e ligamos a lâmpada.

Quando o projetor começou a rodar eu vi dez emoções passarem em rápida sucessão no rosto do meu amigo. Eu, que filmo tudo, tinha o celular apontado para o seu rosto, preocupada demais em registrar o momento, preocupada demais em não dar importância para o que eu nem sabia que estava sentindo. Meu amigo ajeitou o quadro, deu risada -- um sorriso lindo, largo -- e apontou pra janela de projeção. Eu abaixei o celular e me aproximei da lente para olhar lá na frente. O som do projetor -- indiscritíveis vinte-e-quatro-quadros-por-segundo -- tomava conta da sala. Na tela, no teatro, lá embaixo, o filme: de cabeça pra baixo. Eu dei risada. E comecei a chorar. E não parei mais por um tempo.

Um fragmento de algo do passado se encaixava naquele momento. Lustroso e reflexivo, como um espelho do presente. Um pouquinho de poesia tinha acontecido comigo, e eu não sabia nem porque nem como. Mas quando eu parei de chorar eu aceitei viver entre ela e a burocracia dos trabalhos que eu ainda tinha que entregar naqueles mesmo dia. E, por enquanto, é o suficiente.

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