Acho que foi em alguma aula magna ou num podcast sobre direção que eu ouvi um diretorzão desses grandes -- talvez o Scorcese? -- falar sobre enquadramento. Ele dizia que na hora de filmar um plano só há um lugar em que você pode colocar a câmera: o lugar certo. Só uma posição vai fazer a cena funcionar em toda sua força em termos de trama, personagens, ritmo, tom.
Eu nunca dirigi nada, e confesso que tenho um pouco de medo de tentar, mas já escrevi uma coisa ou outra, e acho que, no fim, a criação de qualquer coisa segue esse padrão.
Quando você surge com um personagem ele só existe. Alguns outros se associam, uma história se forma, eles se relacionam entre si, e quando você percebe existe um mundo todo na sua frente. Algo novo, que nunca esteve lá antes. Mas nada surge do nada. Tudo isso depende de muita paciência e perseverança. Das horas que a gente passa viajando na maionese, pensando no que aconteceu no passado de gente que nunca existiu.
É estranho demais que quando faço isso tenho a sensação de que eu nunca estou realmente inventando nada? Por aquele espaço de tempo, na minha cabeça, aquelas pessoas são reais. Eu testo hipóteses do que pode ter acontecido -- testo as posições da câmera, aqui e lá -- até que alguma coisa encaixa. Eu encontro o lugar certo de onde olhar, coloco o olho no viewfinder, e está tudo em foco. Aquela pedrinha que eu acabei de colocar num mundo que só existe na minha cabeça parece sempre ter estado lá. Trama, personagem, ritmo, tom. E mais, até. Porque escrever vem na verdade bem antes de tudo isso.
Recentemente eu me toquei do quanto criar com outra pessoa é mais legal, em parte porque quando encaixa de verdade você vê no rosto do outro escritor. Hoje na reunião de Espelho era divertidíssimo ver que a gente achava coisas que pareciam óbvias, depois de jogar ideias pra lá e pra cá por horas.
É novo, pra mim, trabalhar em um argumento que não é originalmente meu, em algo que não foi concebido da minha cabeça desde o começo, mas eu não sinto que perdi nada.
Quando sentamos pra criar o site, a pergunta, meio brincando, foi:
"Que nome a gente dá? Tem que ser bom, o melhor, o único possível."
E como nada mais saía e esse parecia certo, mesmo que a gente não tivesse entendido na hora o por que, o Walk criou ele com esse nome estranho mesmo. Foi só um pouco depois que ele disse, a respeito de um novo fato na vida de um personagem,
"Parece que as coisas encaixam, né? Você testa uma, outra, mas só tem uma... única possível."
Era isso. Até o diacho do nome do site encaixava direitinho na situação. Uma sala de escritores é um universo paralelo, ninguém nunca vai me convencer do contrário. E se eu sou doida, pelo menos não sou doida sozinha.
Estamos criando, mas mais que isso, acho que estamos descobrindo. Tem sempre algo novo. Sempre algo que eu não vi ainda. Me deixa ainda mais animada pra ver o que tem por trás dessa gente toda que a gente tem na cabeça agora. Que tipo de coisas elas ainda tem pra nos contar.
Mal posso esperar pra terminar o desenvolvimento de personagem pra que a gente possa partir pro roteiro mesmo. Ver o que surge dessa nova etapa.
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