sábado, 15 de setembro de 2018

a Caixa de Pandora

Tem uma caixa no meu guarda-roupa que eu chamo de Caixa de Pandora. Eu a chamo assim porque sempre que eu a abro um monte de monstros saem de dentro dela, um monte de feras. Elas saem aos montes, se espalham por todos os cantos e ficam fazendo uns sons esquisitos, igual as velociraptores do Parque dos Dinossauros, como se estivessem chamando outras iguais a elas.

Primeiro fico um tempo parado, porque se você não se mexe elas não percebem que você está lá. Depois me aproximo devagar. Uma delas avança, levanto a mão: "Ei, garota... Sou eu... Você não lembra de mim?" Ela para e entorta um pouco a cabeça, como um cãozinho. Olha nos meus olhos. Dá um passo à frente, me estuda. Nessa hora há sempre um momento, um recorte no tempo, em que eu sinto que ou ela me reconhece ou vai me atacar, pular em mim com as garras abertas e acabar comigo, sem piedade. Prendo a respiração,

a olho fixamente, sem piscar.
O tempo para.

Mas passado o momento de desconfiança, essa tomada em câmera lenta, me sinto em casa, confiante. Me aproximo mais. Não falo mais nada, mas conversamos mesmo assim, você não precisa falar pra conversar. Fico olhando como ela cresceu. É estranho como elas crescem e você não sabe como isso aconteceu se ela ficou esse tempo todo dentro da caixa.

Às vezes ficamos horas nessa conversa velada, depois normalmente ela volta pra caixa e todas as outras vão atrás. Eu fecho a caixa e coloco no guarda-roupa. Mas às vezes pego uma e guardo num caderno, a alimento todos os dias e fico sempre por perto, mas nunca coloco uma coleira nela.

Ideias domesticadas são muito tristes.

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